Carta aberta
No dia 13 de setembro de 2006, eu e o David abrimos a Vital Work. Hoje ela faz 20 anos.
Eu tentei escrever isso de um jeito bonito e não funcionou. Então vou escrever do jeito que foi.
A gente se conheceu no ensino médio. Anos depois cada um saiu da faculdade com um diploma diferente na mão, ele em quiropraxia e eu em administração, e resolvemos abrir uma empresa junto. A divisão era simples e nunca mudou: ele respondia pela saúde, eu respondia pela empresa. Traçar o caminho, fazer a gestão e vender. Naquela época quiropraxia era uma coisa que quase nenhuma empresa de saúde e bem-estar tinha no portfólio.
Antes de sermos Vital Work, a gente se chamava Vittallis — Núcleo de Saúde Complementar.
Nosso escritório era uma sala em cima de um ateliêde costura. O lugar tinha sido um petshop e ainda cheirava como um. Parede de azulejo, apertado, com pouco dinheiro para pagar as contas do mês seguinte, num momento em que quase ninguém investia em saúde dentro das empresas. No quadro branco da parede a gente tinha escrito "empreendedores selvagens". Era o que a gente achava que era.
O telefone não tocava. Não tinha e-mail para responder.
A gente marcava um dia D. Se até tal data não faturasse x, fechava a empresa e cada um ia procurar um emprego. Chegava a data, acontecia alguma coisa pequena, e a gente empurrava o dia D para frente. Foi assim por quase dois anos, um dia depois do outro. Eu praticamente não recebi nada nesse período — quem me sustentou foram meus pais.
Em 27 de novembro de 2007 a gente assinou o primeiro contrato. Uma empresa de eventos contratando sete massoterapeutas para uma ação num sítio em São Bernardo. Mil quinhentos e setenta reais. A gente filmou a assinatura, porque naquele dia aquilo era a coisa mais importante do mundo. E era mesmo.
Aí veio a Silvia Marchetti. A Vital não tinha portfólio, não tinha experiência, não tinha caso nenhum para mostrar. Ela disse que via competência e brilho no olho, e nos deu o primeiro contrato fixo, na casa do bem-estar da PwC. Foi ela também que me levou para a ABQV, onde depois tive a honra de ser diretor voluntário e conselheiro por sete anos. Quando me perguntam o que fez a Vital existir, eu penso nessa decisão dela.
Depois foi uma coisa puxando a outra.
Veio a decisão de pegar um financiamento no banco só para ter um stand num evento de saúde corporativa. Era dinheiro que a gente não tinha. Foi ali que conhecemos a Victory e entendemos que as consultorias de benefícios eram parceiras de verdade no nosso mercado. Hoje isso é um dos pilares do nosso crescimento. E foi de lá que veio a Natalia Contente, que segue comigo até hoje na nossa parceria com a Marsh e sempre apoiou a Vital Work nos momentos bons ou ruins.
Veio a Marta Figueiredo, que nos deu a chance de atender Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo ao mesmo tempo e nos trouxe a oportunidade de virar uma empresa nacional antes de a gente saber como. Hoje ela está do meu lado, dentro da Vital, e tenho muito orgulho de estarmos juntos neste propósito.
Veio a PepsiCo, com check-up em mais de dez unidades pelo Brasil. Eu e o David dividimos o mapa: eu peguei o sul, ele pegou o norte. Antes disso eu tive que estudar tudo do zero, comprar equipamento, criar protocolo, treinar e selecionar gente.
Veio o programa de obesidade com coaching de saúde na BASF, quando quase ninguém falava em mudança de hábito. Veio a Bridgestone, nosso primeiro case de ROI de verdade, com cirurgia de coluna evitada dentro do ambulatório. Veio a saúde mental dentro das empresas, com o primeiro case na Cielo em 2016, numa época em que o receio era o colaborador achar que, se fizesse terapia dentro do trabalho, iam olhar para ele como louco.
Veio a nossa veia tech, que começou bem antes do que parece. O primeiro sistema, a plataforma de mapeamento de saúde, e depois o Já Mudei. Essa porta quem abriu foi o Maurizio Chieco, e por causa dele eu vivi uma das melhores experiências desses 20 anos: receber um aporte de investidor, montar uma startup do zero e descobrir na prática o tamanho do desafio. O Já Mudei não escalou como a gente queria. E veio junto a sensação de fracasso, que todo empreendedor conhece bem e quase ninguém publica. Só que hoje eu sei que cada tentativa que não deu certo é parte do caminho até aqui.
Veio a pandemia, com metade do faturamento comprometido e serviço parado. A gente decidiu manter todos os Vitais. Pela planilha, não era a decisão que a maioria das empresas tomaria. Mas era a decisão que tinha a nossa essência: valorizar as pessoas e cuidar delas na hora em que elas mais precisam. Foi a decisão mais cara e mais certa que eu tomei. Esse time se reinventou: ampliamos a nossa atuação digital para chegar na casa das pessoas e tivemos que nos capacitar para aplicar teste de covid. Nada disso recuperou tudo o que a gente perdeu, mas foi o que permitiu atravessar o período em pé.
A Vital saiu da pandemia sabendo fazer mais coisas do que quando entrou.
A Vital, na sua essência, sempre buscou inovar, e foi nessa busca contínua da melhoria que chegamos ao VBHC (Cuidados de Saúde Baseado em Valor), com a Dra. Márcia, que deu nome e método para uma coisa que a gente perseguia desde o começo: trazer o melhor cuidado para as pessoas e os melhores resultados para as empresas. No VBHC a Vital Work propõe atrelar parte do nosso pagamento ao resultado que entregamos. É um risco que a gente assume pela confiança na entrega do nosso trabalho, num sistema acostumado a receber independentemente do desfecho.
Nesses 20 anos eu tomei muito não. Tomo até hoje e vou continuar tomando. São os poucos sins que renovam a gente.
E tem uma parte que eu faço questão de contar. Eu já recebi massagem, fiz consulta com nutricionista e deixei enfermeira furar o meu dedo para testar o time antes de contratar. Carreguei maca, cadeira de quick massage e biombo por São Paulo e pelo Brasil afora. Fiquei em pé o dia inteiro organizando fila de atendimento. Acordei de madrugada para não chegar atrasado, montei tenda em evento de corrida, era o primeiro a chegar e o último a sair, e perdi muito fim de semana. Hoje eu vejo outros Vitais fazendo isso e tenho orgulho de ter passado por ali. Eu faria tudo de novo, inclusive sem saber se ia dar certo.
Se a Vital chegou até aqui, foi por gente. Pelo David, que fundou essa empresa comigo e a quem eu devo quem eu sou. Pela Heloisa Barbosa, que entrou como recepcionista quando a gente era quase ninguém e hoje é a gestora da nossa área financeira. Pela Flaviany Russo, que já foi minha contratante do outro lado da mesa, topou assumir um dos nossos maiores projetos e hoje é a gestora da nossa área comercial. Pela Bruna Pinheiro, que topou desafio atrás de desafio e hoje é sócia à frente das linhas de cuidado. Pelo Leonardo Cardoso, meu sócio e meu ponto de equilíbrio, que carrega a gestão da empresa e me dá o tempo de pensar na Vital dos próximos 20 anos. E por cada um dos quase 300 Vitais que estão hoje nos bastidores e na ponta.
E por todos os clientes e parceiros que confiaram na Vital nesses 20 anos. Muitos apostaram quando a gente ainda não tinha nada para mostrar. Vocês toparam junto, e nada disso existiria sem vocês.
E pela minha família. Meus pais, que me bancaram quando não havia nada. Meus filhos, que me fazem melhor como pessoa e como líder. E minha esposa, que me dá a segurança de seguir.
Agora a Vital Work está no meio de outra virada, se transformando em uma empresa cada vez mais digital. E essa virada não é sobre tecnologia pela tecnologia. É sobre liberar o melhor dos Vitais por meio de tecnologia, dados e inteligência artificial, para que o trabalho fique mais simples, mais inteligente e mais integrado, e para a gente escalar o cuidado sem tirar o humano do centro. É nisso que eu penso quando penso na Vital dos próximos 20 anos.
Uma coisa que eu aprendi nesses 20 anos é que existe a saúde que se mede e existe a saúde que se sente. A gente precisa das duas. O indicador mostra o impacto. A pessoa dá sentido a ele.
Se você leu até aqui, é porque em algum ponto essa história encostou na sua. Eu queria muito ouvir a sua. Tem um botão logo abaixo — quem responde sou eu.
Obrigado pelos 20 anos.
Jean